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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cabaça - Lagenária vulgaris


Quem já bebeu água de cabaça, sabe o gostinho peculiar que ela tem. Gostinho esse que me transporta a minha infância, quando nos meses de férias, passava dias na casa dos meus avos no sítio Cercado das Pedras. Como toda criança, cheia de curiosidade,  acompanhava meu avo, Sr. Nascimento, à roça e observava que uma presença era constante - a cabaça, usada como cantil e que era guardada embaixo de um juazerio, repousando à sua sombra enquanto meu avô trabalhava e eu, claro, brincava. Logo tive a minha própria cabaça, que meu avô confeccionou pra mim. Era uma cabaça pequenina, mas que eu não trocava por nada. O sabor daquela água ainda reside em mim, como a forte saudade de meus avós.

É neste clima saudosista que eu vos apresento a CABAÇA:
Cabaça ou porongo é a designação comum dos frutos de plantas da família das cucurbitáceas, especialmente da Lagenária vulgaris. As plantas são chamadas de cabaceira, porongueiro, cabaceiro e, na Amazônia, de jamaru.

O fruto seco é amplamente utilizado em diversos países do mundo, de várias formas:
1. Vasilha para uso em refeições, como cuias ou copos;

2. Moringa para transporte de líquidos, normalmente, água para se beber durante uma viagem;

3. amplificador acústico em instrumentos musicais, como o chocalho, afochê, maraca, sequerê ou xequerê, abê e malimba;
4. Como decoração.

No que diz respeito ao berimbau brasileiro, a menção ao uso de cabaças da família das cucurbitáceas, como a Lagenaria vulgaris, é incorreta. A cabaça utilizada no berimbau é o fruto de uma espécie não aparentada, a árvore Crescentia cujete (bignoniáceas), também conhecida como calabaça, cuia e cueira, da qual nós falamos na postagem anterior.
Em casas ribeirinhas, indígenas e quilombolas do Brasil, os frutos dos cabaceiros, das cuieiras e dos porongos costumam ser partidos em vários formatos, esvaziados do miolo, polidos e, quem sabe, até tingidos e decorados com incisões de exímia precisão, para servir como baldes, coiós, bacias, copos, tigelas; ou como cuias de tomar água, tacacá, chibé e mingau, no Norte e Nordeste, ou chimarrão e tereré, no Sul e no Centro-Oeste. Desses mesmos frutos que são transformados em objetos para comer e beber, também se fazem instrumentos de trabalho de pescadores, seringueiros e produtores de farinha de mandioca, que partem suas bandas de cuia para levá-las aos rios, às florestas e casas de forno.
 Consideradas por diversos grupos humanos como elementos dotados de poderes especiais, as cuias e cabaças estão presentes num vasto conjunto de práticas rituais e tradições religiosas, de matrizes indígenas e africanas em especial, amplamente difundidas no Brasil. Inteiras ou cortadas em partes, ocas, preenchidas ou envoltas em palhas e contas, lisas ou decoradas com incisões, todas têm seus donos na Terra e nos outros mundos, e constituem objetos prenhes de significados ritualísticos que só podem ser integralmente compartilhados por iniciados que conhecem “o fundo da cabaça”.

Taxonomia

A Lagenaria vulgaris é uma trepadeira herbácea. Não se sabe exatamente o origem desta espécie. Trabalhos arqueológicos identificaram artefatos da planta em diversas regiões do mundo, sem no entanto, conseguir identificar a origem. Provavelmente por ser uma fruta flutuante como o coco, cujo formato lacrado permitiu seu transporte através de rios e correntes oceânicas desde épocas remotas, permitindo que suas sementes intactas se difundissem por todo o globo.


Uso, prática e custo

Além da predominância da tradição na maior parte dos casos, é interessante observar que todos os usos relativos estão associados a culturas com baixa tecnologia, já que os objetos adaptados a partir da casca da planta já foram aperfeiçoados há muito tempo, em quase todos os locais de uso atual, ou estes já tiveram acesso a eles.

Por outro lado, pode-se associar seu uso também a culturas economicamente distantes dos centros, já que mesmo tendo acesso, muitos locais adotam o uso por questões financeiras.
Em termos musicais, a substituição não se resume apenas a uma questão cultural ou econômica, já que os instrumentos musicais têm uma personalidade ou um timbre característico, e basicamente devido ao material de que são compostos. Portanto, mudar a base de um instrumento feito a partir da cabaça não seria necessariamente uma boa opção, já que os instrumentos artificiais têm quase sempre uma sonoridade inferior aos instrumentos feitos com materiais naturais.

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